O impacto da (falta de) representatividade

Foram anos detonando meus cachos na chapinha, até meu pai intervir. E não foi uma intervenção branda — ele literalmente enfiou minha cabeça embaixo d'água! Esse foi o (primeiro) chacoalhão que precisei, como mulher negra, pra entender que não há motivos pra ter vergonha do meu cabelo nem de falar abertamente sobre a discriminação.

Quando adolescente, não me espelhava em nenhuma figura feminina que tivesse características semelhantes as minhas. Até porque, não existiam referências brasileiras fortes pra esse enorme segmento da população. Contudo, também sei que há quem acredite que a falta de visibilidade e de representatividade não seja um problema real.

Vamos conversar mais sobre isso?

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A falta de visibilidade e suas consequências

Segundo a psicóloga Roberta Gobbi, não faltam estudos que demonstram as consequências disso, especialmente em crianças. "Elas vêem imagens de pessoas brancas e pessoas negras e associam profissões a essas imagens. Então sempre que ela vê a imagem de um adulto branco, ela associa a uma profissão melhor remunerada. E quando ela vê uma pessoa negra, ela associa a profissões com menor remuneração, como porteiro, diarista, motorista e caminhoneiro."

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Como eu, existem inúmeras pessoas estigmatizadas. Pelo peso, deficiência, gênero, identidade ou qualquer grupo que precise de um movimento para lutar por aceitação e respeito. Todos passaram por processos de autoaceitação e apreciação para se sentirem capazes. Processo construído a partir de referências e exemplos da mídia.

Ainda assim, é nítido o abismo entre as posições ocupadas por pessoas plurais e pessoas consideradas dentro do padrão. “A falta de representatividade e a própria possibilidade de representatividade impacta diretamente nos espaços que essas pessoas se permitem ocupar”, afirma Roberta.

Qual o papel da mídia nessa luta?

Já reparou a quantidade de reportagens como "primeira mulher trans a finalizar um doutorado", "primeiro negro a realizar” tal feito?

Notícias como a da Pabllo Vittar, que foi a primeira Drag a ser indicada ao Grammy Latino, e a Marta, como a primeira mulher a ter seus pés gravados na calçada da fama no Maracanã. Isso ainda choca e mostra o quanto ainda temos que conquistar.

E eu nem sei como descrever a importância de acontecimentos assim. Estamos, finalmente, abrindo precedentes para as próximas gerações.

Mas, mesmo com avanços de movimentos e consciência dos últimos tempos, ainda há muito a se fazer. Por isso, é importante admirarmos o trabalho de quem utiliza sua influência para dar voz à quebra de estereótipos. Foi assim que conheci Duda e sua marca de lingeries, a Ovelha Negra, “uma marca com uma postura adequada perante as mulheres e responsável”, de acordo com a mesma, mais do que uma lojinha online, uma marca que utiliza de sua mídia para integrar e exaltar todos os tipos de mulheres.

Exemplos F*das

 
https://www.ovelhanegra.co/

https://www.ovelhanegra.co/

 

A OV teve início a partir da necessidade de sua fundadora, Duda, de se sentir representada, e também, para cobrir uma demanda latente do mercado que, até então, não possuía a visibilidade de mulheres diversas. Um mercado que não abordava temas como feminismo, apenas a perspectiva objetificada da mulher, “não haviam marcas que colocassem a mulher como a principal consumidora de um produto que era para ser consumido por ela e não por terceiros”, explica Duda.

Essa perspectiva está mudando, empresas e indústrias nacionais estão se mobilizando e criando abordagens que conversam com o público real. Até porque, não há mais espaço para excluir ninguém. E na perspectiva da fundadora, “é muito difícil olhar para um mercado que te excluiu, um mercado que não te considera e não te acha relevante, onde você não tem voz. A nossa intenção sempre foi ser mais representativas, mais inclusivas, para que isso refletisse na auto-estima das mulheres”.

Não vamos deixar a peteca cair

Marcas como a OV enfatizam a importância de referências no processo de autoaceitação. Incluem e igualam todos no mesmo nível, sem discriminar e julgar, exaltando modelos e padrões que não são evidenciados com frequência.

E o nosso papel, junto a referências como essa, é continuar a debater esses assuntos, entender o papel da autoaceitação e representatividade.

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Como colocou a Roberta, precisamos “semear um pensamento mais justo, mostrar e evidenciar essas questões e injustiças que já acontecem com grupos vulneráveis”. Porque esse movimento é de todos para todos e é por meio de discussões que exemplos como o da Pabllo Vittar e a jogadora Marta se multiplicam e se tornam mais e mais frequentes.

Cada um ocupando o espaço que merece, sem medo de ser julgado ou reprimido por ser quem é.

Por Sarah Queiroz